Em Guarapuava, senador relembrou os momentos mais difíceis da carreira como juiz e ministro da Justiça e afirmou que aprendeu a admirar quem “não se dobra” e “resiste”.
Antes de entrar na disputa pelo Governo do Paraná, Sergio Moro enfrentou batalhas difíceis. A lista inclui casos de lavagem de dinheiro, grandes organizações criminosas, a Operação Lava Jato, ameaças de morte, o combate ao PCC, uma eleição sem estrutura partidária e até um plano criminoso que chegou a envolver imagens de sua própria casa nas mãos de bandidos.
O relato foi feito na noite deste sábado (22), em Guarapuava, durante o lançamento das candidaturas de Cristina Silvestri a deputada federal e Cezar Silvestri a deputado estadual, ambos do PP.
“Eu passei por muitas batalhas na minha carreira. Fui juiz por 22 anos e era uma coisa interessante porque só caía pedreira comigo”, afirmou.
Entre os primeiros grandes casos, Moro citou o Banestado, que chegou às suas mãos quando atuava como juiz em Curitiba, no início dos anos 2000. O processo envolvia operações de lavagem de dinheiro e organizações que utilizavam o banco para movimentar recursos ilícitos.
“Foi um caso muito difícil. Era o começo dos anos 2000 e era muito difícil você colocar na prisão qualquer pessoa poderosa que tivesse recursos”, relatou.
A trajetória também passou pelo enfrentamento direto ao crime organizado. Como juiz corregedor da Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná, Moro contou que precisava visitar mensalmente o primeiro presídio federal de segurança máxima do país e lidar com alguns dos criminosos mais perigosos do Brasil.
Ele lembrou que, em determinado momento, recebeu um alerta da polícia de que estava sendo ameaçado e precisaria adotar medidas especiais de segurança.
Na época, os filhos de Moro ainda eram pequenos. Para explicar a mudança na rotina familiar, Moro contou que precisou criar uma versão mais simples para a filha, então com sete anos.
“Eu falei para minha filha: o pai é um bom juiz, ganhou um prêmio e ganhou um motorista agora por um tempo. Então vai mudar um pouquinho o nosso estilo de vida”, contou.
A Lava Jato e os “tubarões” do poder
Mas, segundo Moro, foi a Lava Jato, iniciada em 2014 e conduzida por ele até 2018, que representou uma das maiores batalhas de sua carreira.
“Foi pancada toda hora”, resumiu.
Moro afirmou que a operação enfrentou não apenas o esquema de corrupção envolvendo políticos, mas também grandes empreiteiras que, segundo as investigações, participavam de fraudes em licitações e desvios de recursos públicos.
“Não é simplesmente aqui no Brasil aplicar a lei, não é só fazer justiça. A gente enfrentou os interesses mais poderosos do país”, afirmou.
Ele também destacou a atuação conjunta com a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e o apoio popular às investigações. Para Moro, as manifestações de milhões de brasileiros foram importantes para sustentar a operação diante das tentativas de desacreditá-la.
No Ministério da Justiça, confronto com o PCC
Depois da magistratura, Moro levou a experiência no combate ao crime para o Ministério da Justiça. Segundo ele, uma das ações mais duras foi a transferência de 25 líderes do PCC para presídios federais de segurança máxima.
“Os 25 líderes do PCC que estavam lá em São Paulo, ninguém tinha coragem de mexer, e botamos lá nos presídios de segurança máxima”, afirmou.
Ao avaliar sua passagem pelo ministério, Moro destacou a redução dos homicídios registrada naquele período.
A eleição de 2022 e a batalha contra a “máquina”
Depois de deixar o governo, Moro disputou a eleição para o Senado em 2022. Ele afirmou que chegou à campanha com pouca estrutura e quase nenhum apoio político, enfrentando adversários com muito mais recursos.
“Foi basicamente o voto de opinião”, disse.
Moro fez questão de agradecer o apoio recebido de Cezar Silvestri naquela eleição em Guarapuava e afirmou ter ficado especialmente feliz com a vitória.
Mas, segundo ele, as batalhas não terminaram com a eleição. O candidato do PL relatou que, posteriormente, houve uma tentativa de cassação de seu mandato por meio de uma ação que classificou como “absurda”.
O plano do PCC e a casa monitorada
Moro também revelou que, já como senador, recebeu uma nova ameaça ligada ao PCC. Segundo ele, em janeiro, foi chamado pelo Ministério Público de São Paulo e informado de que havia um plano da organização criminosa contra ele.
A ameaça, segundo Moro, acabou sendo confirmada por uma investigação da Polícia Federal.
“Os caras tinham um vídeo da minha casa onde eu morava. Tive até que mudar da minha casa lá em Curitiba por conta desse tipo de absurdo”, relatou.
Mesmo diante das ameaças, Moro disse que decidiu continuar sua atuação política.
“Mas a gente persistiu, a gente prosseguiu lutando”, afirmou.
Ao encerrar o relato em Guarapuava, Moro transformou a própria trajetória em uma mensagem política. Disse que as experiências enfrentadas ao longo de mais de duas décadas fizeram com que passasse a valorizar ainda mais pessoas dispostas a manter suas convicções mesmo diante de pressões.
“Cada vez mais eu admiro as pessoas que não se dobram, as pessoas que resistem”, declarou.
A mensagem resume a narrativa que Moro pretende levar para a disputa pelo Governo do Paraná: a de um candidato que apresenta sua carreira como uma sequência de confrontos com o crime organizado, grupos poderosos e adversidades políticas — e que agora afirma estar disposto a enfrentar mais uma batalha.


